segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Oração do Perdão

– Lembre-se do Aleph. Lembre-se do que sentiu naquele momento. Palavras, explicações e perguntas não vão servir para nada, apenas para confundir mais o que já é bastante complexo. Simplesmente me perdoe.

– Não sei por que preciso perdoar o homem que amo.

Hilal procura inspiração nas paredes douradas, nas colunas, nas pessoas que estão entrando àquela hora da manhã, nas chamas das velas acesas.

– A menina perdoa. Não porque virou santa, mas porque já não agüenta mais carregar este ódio. Odiar cansa.

Não, não era aquilo que eu esperava.

– Perdoe tudo e todos, mas me perdoe – peço. – Inclua-me no seu perdão.

– Eu perdôo tudo e todos, inclusive você. Perdôo porque eu amo você e porque você não me ama. Perdôo porque você me rejeita e o meu poder se perde.

Ela fecha os olhos e levanta as mãos para o teto.

– Eu me liberto do ódio por meio do perdão e do amor. Entendo que o sofrimento, quando não pode ser evitado, está aqui para me fazer avançar em direção à glória.

Hilal fala baixo, mas a acústica da igreja é tão perfeita que tudo o que diz parece ecoar pelos quatro cantos.

– As lágrimas que me fizeram verter, eu perdôo.
As dores e as decepções, eu perdôo.
As traições e mentiras, eu perdôo.
As calúnias e as intrigas, eu perdôo.
O ódio e a perseguição, eu perdôo.
Os golpes que me feriram, eu perdôo.
Os sonhos destruídos, eu perdôo.
As esperanças mortas, eu perdôo.
O desamor e o ciúme, eu perdôo.
A indiferença e a má vontade, eu perdôo.
A injustiça em nome da justiça, eu perdôo.
A cólera e os maus-tratos, eu perdôo.
A negligência e o esquecimento, eu perdôo.
O mundo, com todo o seu mal, eu perdôo.

Ela abaixa os braços, abre os olhos e coloca as mãos no rosto. Eu me aproximo para abraçá-la, mas ela faz um sinal com as mãos:

– Não terminei ainda.

Torna a fechar os olhos e olhar para cima.

– Eu perdôo também a mim mesma. Que os infortúnios do passado não sejam mais um peso em meu coração. No lugar da mágoa e do ressentimento, coloco a compreensão e o entendimento. No lugar da revolta, coloco a música que sai do meu violino. No lugar da dor, coloco o esquecimento. No lugar da vingança, coloco a vitória.

Serei naturalmente capaz de amar acima de todo desamor,
De doar mesmo que despossuída de tudo,
De trabalhar alegremente mesmo que em meio a todos os impedimentos,
De estender a mão ainda que em mais completa solidão e abandono,
De secar lágrimas ainda que aos prantos,
De acreditar mesmo que desacreditada.

Ela abre os olhos, coloca as mãos na minha cabeça e diz com toda a autoridade que vem do Alto:

– Assim seja. Assim será.

O Aleph – Paulo Coelho

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